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Sobre o exercício de desnaturalizarmos o machismo estrutural: na sociedade e em nós
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Sobre o exercício de desnaturalizarmos o machismo estrutural: na sociedade e em nós

O tema que nos traz aqui tem a ver com a nossa vida concreta e cotitiana. Você e eu estamos completamente imersos nele. Eu venho falar sobre o machismo. Hoje em dia é tema de debates, desde de o Supremo Tribunal de Justiça, passando pelo Planalto, até chegar nas cozinhas das casas ou nos botecos da cidade. O machismo é um tema que constitui a sociedade brasileira e a atravessa de ponta a ponta. Praticamente, não há tema que não seja, de uma maneira ou de outra, tocado pelo machismo estrutural. 

Mas, será, então que todos nós somos machistas? E, indo mais fundo, afinal, o que é ser machista? Cada um tem sua própria resposta, não é mesmo?

Muitos dirão que não existe esse negócio de ‘ser machista’ e que tudo isso é mimimi. Diremos a esses: não é bem assim, não!!! O Brasil é um país profundamente machista em sua constituição.

Outros dirão, que o machismo é a forma rude e, até mesmo, violenta, com que alguns (muitos!!!) homens tratam as mulheres. Esses estão corretos. Isso é ser machista e isso é machismo, mas o machismo não é ‘só isso’: ele é bem mais que isso!

Afinal, o que é ser machista e o que é o machismo?

Ser machista é entender que o que é ‘masculino’ é superior ao que é ‘feminino’. Essa é a explicação, mais genérica que eu posso formular. Vejam só, uma supresa! Certo? A associação entre o machismo e a opressão da mulher é evidente e está correta, como disse: sim, é machismo!

Quero mostrar que essa opressão é fruto do machismo, mas ela não é todo o machismo. O espectro do machismo é bem mais amplo. Desde já afirmo que, com isso, não estou diminuindo de forma alguma a opressão e a violência dos homens contra as mulheres. Essa violência precisa ser superada e quem ganha com isso é a humanidade. 

O machismo estrutural é a construção, a organização, a disposição e a ordem dos elementos que compõem o corpo social, dando sustentação à dominação patriarcal. Essa estrutura enaltece os valores constituídos como ‘MASCULINOS’ em direto e (des)proporcional detrimento da condição autônoma dos valores constituídos como ‘femininos’ em todas as suas manifestações – e, como dissemos – em especial na mulher e nas sexualidades que não são heteronormativas. O machismo, lido como sistema de opressão do feminino, mesmo fazendo todo esse trabalho para enaltecer os valores ‘MASCULINOS’ e os sujeitos que convencionamos chamar de ‘homens’, é produtor de mazelas e pressões para esses ‘homens’. E por quê? “Pensei que o machismo só agredisse a mulher?” pode alguém perguntar.  O machismo é maléfico para o homem porque gira em torno de uma brutal exigência de sua masculinidade, estimula e exige comportamentos que, muitas vezes, lhes causam profundos danos psíquicos e físicos. Aqui precisamos novamente afirmar, esses danos são causados de formas e proporções diferentes dos danos produzidos às ‘mulheres’. E indo além, o machismo estrutural coloca todos os gêneros que escapem a qualquer classificação binária e dicotômica (ou seja as que entendem que só existe MASCULINO = HOMEM e feminino = mulher) como aberrações e os relega à invisibilidade. É daí que é importante chamarmos atenção e pedir respeito e união à legítima luta LGBTQIA+ por visibilidade, pois ser visível significa existir – só não sabe disso que já é visível – como os homens e as mulheres cis-heterormativas). Estas inclassificáveis classificações de gêneros do ponto de vista do machismo podem ser referidas como ‘ambíguas’, pois podem ‘admitir mais de uma leitura’. Ora, justamente, por isso, não são compreensíveis para à (muito menos respeitadas pela) leitura binária e dicotômica do machismo. O machismo é profundamente intolerante com a ambiguidade.

Nos parece importante apontar outras observações sobre o machismo para que possamos compor uma ideia suficientemente forte de machismo estrutural para que possamos, a partir daí, investiga-lo, compreendê-lo e combate-lo.

Assim, podemos dizer que o machismo é uma forma de preconceito: pois é uma opinião ou sentimento concebido sem exame crítico (justamente o exame que pretendemos convidar os leitores e as leitoras a realizarem). O machismo é um preconceito porque é um conjunto de ideias, opiniões ou sentimentos que são desfavoráveis ao ‘feminino’, esse conjunto é formado sem conhecimento abalizado, sem ponderação ou mesmo sem razão (moralismo). Assim, é, igualmente, um sentimento hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma regra naturalizada (a superioridade do ‘MASCULINO’ sobre o ‘feminino’); e é uma intolerância, pois não permite que nada fora disso floresça. 

O machismo se manifesta em opiniões (ideias), atitudes (ações), sentimentos. Desde pequenos somos ensinados, pela família, a sermos homens ou mulheres e, com isso, uma série de regras de comportamento para cada gênero. Isso produz subjetividade, produz nossas ideias, as formas pelas quais sentimos e agimos no mundo.

Como desdobramento do preconceito, o machismo é uma forma de discriminação, pois se materializa num tratamento diferenciado (no caso, pior) dado ao ‘feminino’ em relação ao ‘MASCULINO’. Esse movimento discriminatório é claramente visto no mercado de trabalho – assim como em outras instâncias do social (especialmente àquelas ligadas ao poder). 

Ser machista é exercer a violência simbólica, psicológica, física, moral, material, sistêmica, pois toda forma de constrangimento exercido sobre o ‘feminino’ é de ordem machista. Essa violência é sempre realizada no sentido de obrigar o ‘feminino’ a submeter-se à vontade do ‘MASCULINO’. A violência final contra o ‘feminino’ é o feminicídio: o assassinato de uma mulher que tem sua causa, justamente, ela ser mulher. Mas, é a violência contra o feminino no corpo do homem, reprimindo qualquer manifestação de afeto ou sensibilidade nestes corpos.

O machismo é uma forma de opressão, de sujeição imposta pela força, pelo uso da autoridade ou, digamos de maneira mais correta, do autoritarismo. É uma tirania, a qual coloca o ‘feminino’ sob jugo do ‘MASCULINO’. Ele mostra sua face no constrangimento e na pressão moral (por exemplo a constante coação da mulher a ser recatada, pudica, casta) à qual submete tudo o que é ‘feminino’, notadamente a mulher, as populações LGBTQIA+ e todos os homens que se recusam a serem Homens (com H maiúsculo, como se diz por aí), provocando humilhação e embaraço. A opressão do machismo produz, sem dúvidas, diminuição acentuada do vigor e da energia dos indivíduos na sociedade.

Consideramos, por fim, o machismo como um exercício de poder, forma de controle e dominação, pois no machismo a construção dos corpos obedece à construção do corpo ‘masculinizado’ (no sentido de construído como masculino) como referência (para quem tem pênis) e do ‘feminilizado’ (no sentido de construído como feminino) como desdobramento, ausência, inversão do masculino (para que não tem pênis) – disto, tira-se conclusões morais da condição do ‘feminino’ como ausência e naturalmente inferior por natureza ao ‘MASCULINO’. Desse pressuposto, se desdobram as regras morais e, nelas, a exigência do comportamento (casto, pudico, recatado) das mulheres. 

O livro “Desnaturalização do machismo estrutural na sociedade brasileira” (Helio Hintze, organizador) oferece ferramentas que possibilitam a desnaturalização essa estrutura dominação, apresentando alguns mecanismos de seu exercício de poder, investigando os discursos que o fundam e que o perpetuam. 

Sobre o livro

Esta obra é fruto de um trabalho coletivo de pesquisadoras e pesquisadores unidos por um desafio central: contribuir para a desnaturalização do machismo estrutural de nossa sociedade. As reflexões caminham para superar o machismo estrutural de nossa sociedade ao mesmo tempo em que combatemos o machismo dentro de cada um de nós. Esperamos que essa contribuição possa abrir as portas da crítica e recolocar aquilo que fora naturalizado ao longo do tempo nos trilhos da história, visando sua transformação e a produção de formas de convivência mais saudáveis, de sociedades e seres humanos mais emancipados, menos preconceituosos e mais abertos à compreensão da beleza que advém da singularidade e da pluralidade humanas.

Sobre o autor e organizador do livro

Hélio Hintze é educador, filósofo e pesquisador transdisciplinar. Coordenador do Observatório do Machismo. Educador e palestrante nos Projetos Fazer Pensar – Ética & Educação e Sabores & Saberes.

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Fundada em 2009, é uma editora voltada para a publicação de conteúdos científicos de pesquisadores; conteúdos acadêmicos, como teses, dissertações, grupos de estudo e coletâneas organizadas, além de publicar também conteúdo técnico para dar suporte à atuação de profissionais de diversas áreas.

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