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As relações diplomáticas entre Brasil e Uruguai (1931-1938)

Brasil e Uruguai são países fronteiriços com uma extensão de fronteira de 1.068 km e uma área de 38.343 km2, envolvendo cinco departamentos uruguaios e diversos municípios brasileiros. Atualmente, cerca de 800 mil habitantes, vivem na fronteira uruguaio-brasileira. Durante a Era Vargas (1930-1945), os intercâmbios políticos, comerciais e culturais se intensificaram gradativamente. Isso porque essas relações entre Brasil e Uruguai refletiram mudanças na política continental e internacional de ambos os países.

Em termos histórico-geográficos, o território da Bacia do Prata tem apresentado um contorno bipolar, no qual se distingue um polo hegemônico, formado pelos grandes estados da Argentina e do Brasil, e uma área fronteiriça, formada pelos três restantes “pequenos” países (Bolívia, Paraguai e Uruguai). A longa disputa argentino-brasileira pela liderança na região, sem dúvida, configurou a base dominante do paradigma de conflito, que prevaleceu na região pelo menos até a segunda metade da década de 1980. Por sua vez, os restantes “estados fronteiriços” basicamente “pendularam” – ainda que de formas diferentes – entre os dois gigantes, fechando definitivamente o caminho isolacionista após a destruição do Paraguai na Guerra do Paraguai (1864-1870). Sem acesso ao mar após a também condenável “Guerra do Pacífico”, a Bolívia ficou como o Paraguai, de certa forma, convertida em “prisioneiros geopolíticos”, com as consequentes severas restrições dessa situação. O Uruguai, por outro lado, a partir de sua localização privilegiada na foz do estuário do Rio da Prata, pôde ter outras possibilidades de conexão além da região, embora sua história não possa ser compreendida senão em estreita relação, embora com maior flexibilidade, com a evolução de sua vizinhança.

Indubitavelmente, essa dualidade configurou uma das chaves para entender os paradigmas políticos da região platina ao longo de sua história. Nesse sentido, a maior parte dos conflitos que se desenrolaram na história regional tem a ver com os significados dessa complexa polaridade, em especial com a dialética gerada pela oferta de liderança entre os dois “Estados hegemônicos” e pelas ações restritas implementadas pelos outros três “estados fronteiriços”, buscando aproveitar a disputa entre seus “gigantes” vizinhos e afirmar seus interesses e direitos limitados pelas visíveis assimetrias da região.

Após essa equação, a elucidação de muitos conflitos históricos na região do Cone Sul também dependeu de como “os grandes” interagiam em relação aos “pequenos”. Essa interação poderia assumir a lógica bélica de conquista militar, como na Guerra do Paraguai contra o Paraguai, em que a Argentina de Mitre e o Império do Brasil de D. Pedro II atuaram juntos, com a participação secundária do Uruguai, ou em outras, em que o Brasil atuou sozinho com objetivos muito específicos, como, por exemplo, na conquista das cabeceiras dos três grandes rios (o Paraná, o Paraguai e o Uruguai) que compõem os três grandes sistemas hidrográficos da Bacia do Prata. Em outras ocasiões, como no período de 1930-1980, que muitos autores concordam em caracterizar como a “era da geopolítica”, os instrumentos de ação foram implementados por meio de iniciativas diplomáticas ou negociações bilaterais, muitas vezes referindo-se ao uso energético dos recursos naturais.

Nos tempos de Getúlio Vargas e Gabriel Terra, ao longo da década de 1930, o conflito entre os “Estados hegemônicos” traduzia-se frequentemente na tensão entre bilateralismo x multilateralismo. Por muitas razões, de geográficas a políticas e históricas, o Brasil tendeu claramente a preferir e a defender a primeira estratégia, enquanto a Argentina, com muito menos sucesso e com menos planos estratégicos, foi orientada a resistir aos ataques do “gigante norteño” através da reivindicação dos princípios do multilateralismo. A resolução desta última tensão teve também muito a ver com a atitude assumida, geralmente separadamente, pelos três “estados fronteiriços” a que nos referimos.

Naqueles distantes anos 30, Brasil e Uruguai -além de suas manifestas assimetrias- interagiram em um contexto regional cada vez mais impactado pela vertigem de um mundo carregado de polarização ideológica e guerra. A partir de sua antiga autopercepção de “país pequeno entre dois gigantes”, o Uruguai continuou a oscilar entre Argentina e Brasil, mas como já foi apontado, por muitas razões – algumas conjunturais, outras com uma perspectiva “mais complexa” – fê-lo por uma clara preferência pelo “gigante do Norte”. Esse nível mais alto de associação também tinha a ver com a proximidade política e até pessoal entre Terra e Vargas.

Para compreender melhor essas relações diplomáticas entre esses países da América do Sul confira o livro de Rafael Nascimento Gomes, “As relações diplomáticas entre Brasil e Uruguai (1931-1938): o Brasil de Getúlio Vargas visto pelo Uruguai de Gabriel Terra”, disponível no catálogo da Paco Editorial:

Neste livro, o leitor encontrará uma síntese histórica da política do Brasil em relação ao Rio da Prata, com destaque para o Uruguai, bem como análise da historiografia sobre as relações entre os dois países. A análise da interpretação da diplomacia uruguaia do Governo de Getúlio Vargas, bem como dos seus objetivos e expectativas nas relações com o Brasil, entre 1931 e 1938, é feita pari passu às suas conexões com os processos políticos internos uruguaio e brasileiro. Rafael Nascimento Gomes é bem-sucedido em demonstrar a “visão do outro” – da diplomacia uruguaia – em relação às políticas interna e externa brasileira. Ademais, ele contribui para o conhecimento delas por meio do aporte das análises diplomáticas uruguaias sobre a realidade política brasileira. Este livro demonstra não só a importância do Brasil para o Uruguai, mas também a importância deste para nós. Na década de 1930, convergiram para posições comuns no antiliberalíssimo e na vigência das ditaduras varguista e terrista; hoje, felizmente, convergimos no processo de integração e na defesa da democracia. Este livro é exitoso a analisar o início dessa trajetória, a qual demanda novos estudos históricos.

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